domingo, 18 de janeiro de 2009

Mais uma entrevista com um campeão

Danilo Binda Glasser tem sempre algo interessante (e polêmico) para falar. Durante dez anos, ele fez parte da seleção brasileira de natação paraolímpica. Conquistou duas medalhas de bronze em dois Jogos (Sydney-2000 e Atenas-2004). Foi dono de dois recordes mundiais nos 50m livre S10 e um nos 100m livre da mesma classe. Esse é o resumo do currículo invejável de um campeão do esporte adaptado. Essa é mais uma entrevista ao LANCENET! com uma personagem única.

LANCENET! - A imprensa conseguiu entender a importância do esporte paraolímpico?

DANILO BINDA GLASSER - Infelizmente não podemos generalizar. No meu caso, falando como comentarista do SPORTV, posso falar que sim, mas ainda vemos muitos setores da imprensa tratando o atleta deficiente como um coitadinho que aprendeu a viver novamente. Claro que isso tem sua parcela de importância, mas a imprensa precisa aprender, principalmente quando a pauta é "esporte", sobre a necessidade de divulgar esporte e mostrar os resultados e fatos. Não pode transmitir sentimento de dó. Por que não comparar Daniel Dias com Cesar Cielo, ou até mesmo Michel Phelps? Se Claunidei Quirino requisitou uma estrela na camisa do seu time do coração com o fato de ter herdado a medalha de ouro, de Sydney 2000, porque não o Corinthians coloca uma em sua vestimenta uma outra, em homenagem ao Daniel? Aí sim. Ao invés da imprensa falar sobre a superação de seus limites, poderia tratá-lo como atleta, pois treina a mesma coisa ou mais do que qualquer nadador olimpico. Exemplo para isso? Em 2003, disputei os campeonatos paulista e brasileiro contra XUXA, Gustavo Borges & Cia. Atualmente, temos o Andre Brasil quase pegando final no Maria Lenk. Isso não é ser atleta? Ou é ser o deficiente que aprendeu a nadar? Isso falta para a imprensa brasileira. Até mesmo humildade para ver o que fazem lá fora. Na Argentina, que fica aqui ao lado, é tudo diferente. E os argentinos, por enquanto, não têm os nossos resultados. Vira e mexe temos paraolímpicos competindo e ganhando de olímpicos como acontece nos Estados Unidos, Canadá e Austrália. Disputam o mesmo troféu, a mesma homenagem.


L! - O que você já viu em sua carreira dentro e fora do esporte que te emocionou?

DBG - A prova mais emocionante que assisti em toda minha carreira paraolímpica. O 200 Medley SM7 do Mundial 1998 na Nova Zelândia. Eu era novato, minha primeira convocação. Estava espantado com o alto nível. Um dos melhores amigos que fiz no movimento, Gledson Soares nadou de forma magnifíca. Foi uma batalha braçada a braçada. Eu tenho tudo gravado na minha memória. Foi uma demonstração de pura raça. Nos 50 metros finais, deixou literalmente aos seus pés o adversário francês e ficou com a medalha de bronze. Ficou a demonstração de que quando um atleta tem um objetivo, e luta por ele, tudo é possível. O francês acreditava no que tinha acontecido. Na verdade, todos ficaram impressionados. Ali tive a prova de que Gledson Soares era um lutador. Fora da natação também presenciei emoções, como ver ao vivo as vitórias da Adria Santos em Sydney-2000 e em Atenas. O Futebol de 5 em Atenas-2004. Vi o Tenorio reinar em Sydney e Atenas.

L! - E os momentos tristes?

DBG - Mas tambem vivi momentos tristes. Em Atenas-2004, cheguei como um dos favoritos nos 50 livre. Depois de nadar uma eliminatória só para me classificar, fui para a final. Após uma largada mal executada não pude me recuperar na prova e fiquei com a quinta colocacao. Um balde de água fria! Foi uma tristeza enorme ver minha esposa na arquibancada e a medalha longe. Ver que os medalhistas não conseguiram bater minha melhor marca, o tempo do meu vice-campeonato do mundo. Outro fato marcante, triste, foi no mesmo Mundial em que fui prata nos 50 e bronze nos 100. No primeiro dia, os nadadores teriam de competir no 4x100 livre. Aquela prova que tinha nos consagrado em Sydney, dois anos antes. Ali estavam os mesmo países, os mesmos adversários, e nós, surpreendentes medalhistas da última Paraolimpíada. Eu, Adriano Lima, Mauro Brasil e Fabiano nadamos muito. Nessa prova, fiz minha melhor marca nadando os 100 livre com 56 segundos e 79 centésimos. Deu um nó na gargante e foi duro continuar a batalha durante os outros oito dias de Mundial. Eu, Mauro e Adriano tivemos a oportunidade de voltar ao pódio, já meu amigo Fabiano deve estar com esse nó até hoje na garganta.

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