terça-feira, 8 de julho de 2008

Alma carioca ao volante


Taxista ensina cidadania nas ruas da Cidade (quase) Maravilhosa
Paulo Vitor, do LANCENET!/MSN (http://www.lancenet.com.br/blogs_colunistas/paulovitor/)

Nelson Payssandu é o retrato do malandro do bem carioca. Excelente papo, engraçado e fanático por futebol (diga-se de passagem pelo Botafogo), com uma vida cheia de grandes acontecimentos. Ele é personagem do livro ‘Táxi – A vida e histórias de um taxista no Rio de Janeiro’, de Gino Santos. Além de todas essas qualidades, Nelson tem outra: trata com respeito seus passageiros com deficiência. Morador do Horto, Payssandu tem muitos clientes na ABBR. Em uma rápida e descontraída conversa no Café Lamas, no bairro do Flamengo, degustando um suculento frango a passarinho, o carioca ‘boa-praça’ de 54 anos, figura carismática da Rua Paissandu (daí o carinhoso apelido) por mais de três décadas, mostrou muita consciência e o seu lado cidadão.

Nelson contou para o site NOTÍCIAS PARAOLÍMPICAS (http://www.einclusao.net) a primeira vez que embarcou uma pessoa com deficiência em seu veículo. “Olhei para os companheiros e ninguém ‘pegava’ uma menina cadeirante, acompanhada de uma senhora com uma certa idade. Fiquei revoltado. Os colegas diziam que aquilo tudo iria dar muito trabalho ou que a corrida era curta. Embarquei as duas, a garota no banco do carona, na frente, e, com o maior cuidado, coloquei a cadeira de rodas no porta-malas. Como era daquelas antigas, não desmontava. Fácil. Peguei o extensor e amarrei-o bem”, disse o inteligente e prestativo motorista.

Nelson diz que atualmente está habituado a embarcar pessoas com deficiência, pois as novas cadeiras de rodas, mais flexíveis e que desmontam com rapidez e facilidade, ajudam muito. Segundo ele, os clientes ligam da Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR). O simpático carioca vai buscá-los com um sorriso no rosto. “Por que não?”, indaga o motorista, questionando a má vontade de alguns colegas.

Nelson tem até site para a obra baseada em sua vida. No endereço eletrônico www.taxilivro.com.br os internautas encontram uma apresentação dele e do livro:

“Nelson é um desses campeões urbanos, sobrevivente numa cidade como o Rio de Janeiro, que nunca perdoa meninos e meninas abandonados na rua ao sabor de um destino normalmente cruel. O anti-herói, com tudo arranjado para a vida para dar errado, foi menino de rua, interno em instituições para menores infratores e funcionário da UNE na época da ditadura, quando levou muita porrada. Seu pai foi o torcedor desconhecido que vestiu, pela primeira vez, a estátua do Manequinho com a camisa do Botafogo, no campeonato de 1948. Nelson era chamado de Manequinho. Viu nascer o Futevôlei, que não foi em Copacabana, como muitos afirmam, mas na Praia do Flamengo. Desmente, inclusive, a autoria do saque ‘Jornada nas Estrelas’, atribuído ao nosso conhecido e famoso jogador de vôlei Bernard.

É amigo de muita gente famosa: Elza Soares, Luiza Brunet, André Gonçalves, Ruth de Souza, Sergio Loroza e até do integrante dos Rolling Stones Ron Wood. Foi vendedor de discos e CDs usados, de água mineral, de muambas que trazia de Nova Iorque, professor de vôlei, guardião de piscina, instrutor de natação, garçom, lavador de prato e de carro e professor de violão. Morou nos Estados Unidos e tocava violão em barzinhos e festas, dirigiu limusines, compôs, interpretou e gravou um CD no Brasil, ganhando alguns festivais locais de música, pintou algumas obras usando como telas portas velhas de madeira, chegando a ser premiado numa exposição no Clube da Aeronáutica. E um certo dia... teve a idéia de que esse livro daria samba. Foi aí que convidou seu amigo Gino Santos para botar no papel tudo que o Homero das ruas cariocas narrava.”

Além disso tudo, Nelson é um homem que entende a necessidade do Rio de Janeiro ser uma cidade maravilhosa para as pessoas com deficiência.

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