quarta-feira, 11 de junho de 2008

Descobri que gosto de futebol

ANDREI BASTOS
Artigo do dia 10 de junho, blog do jornalista Andrei Bastos (http://blog.andrei.bastos.nom.br)

Alguém dizer que gosta de futebol no Brasil não é novidade alguma, pois este é o país do famoso esporte bretão. Mas quem me conhece sabe que eu nunca dei bola (sem trocadilho, por favor) para esta segunda preferência nacional. O que aconteceu comigo, então, nessa altura do campeonato, às vésperas dos meus 58 anos? O que terá provocado tamanha virada de jogo em mim?

Embora eu tenha trabalhado muitos anos dentro das quatro linhas da editoria de Esportes do jornal O Globo, cercado por torcedores fanáticos como só jornalistas esportivos sabem ser, inclusive com o privilégio de ter diagramado os originais mais truncados do planeta, cheios de letras trepadas e datilografados no espaço um da velha e inseparável Remington do passional Nélson Rodrigues, sempre fui mais para “A vida como ela é” do que para “À sombra das chuteiras imortais”.

Torcida brasileira! A responsabilidade por esta minha tardia transformação em torcedor apaixonado, capaz de fazer com que “nelsonrodrigueanamente” eu me debulhasse em lágrimas de esguicho na pré-estréia de ontem no cinema Odeon, é do filme “1958, o ano em que o mundo descobriu o Brasil”, do meu querido amigo José Carlos Asbeg.

A genialidade chapliniana de Garrincha, a preciosidade de Pelé e a majestade de Didi, entre as muitas excelências da melhor seleção brasileira de todos os tempos, segundo conhecedores históricos e eu mesmo, agora o mais novo metido a entender de futebol, sem dúvida forneceram matéria-prima para que Zé Carlos produzisse seu filme e marcasse este gol cinematográfico. Mas é indiscutível que o apuradíssimo domínio da linguagem do cinema e a sensibilidade do diretor o colocaram em posição legal para concluir a jogada e balançar a rede das emoções dos espectadores.

Eu não sabia o que era futebol até ontem e tive a sorte de aprender tudo em uma única aula magistral, repleta de magistrais jogadas e dribles. Cabeçadas, passes de calcanhar, folha seca, a coreografia do balé apaixonante que fez com que o mundo descobrisse o Brasil, e se rendesse à sua magia. Todos os lances importantes da campanha vitoriosa da primeira Copa conquistada, as jogadas decisivas, o que se viveu e o que se pensou durante a competição, aqui e no mundo, junto com o retrato do momento político-econômico brasileiro, que era representado por JK e só tinha a ver com a Taça Jules Rimet nas mãos de Bellini, estes são os versos audiovisuais do “ano em que o mundo descobriu o Brasil”.

“1958” não é um simples documentário. O filme do diretor artilheiro Zé Carlos é mais do que cinema – é gol de placa, sonho, paixão, poema épico! Como diria Nélson Rodrigues, a sessão de cinema acabou em choros convulsivos e aplausos delirantes.

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