segunda-feira, 7 de abril de 2008

Pára com isso!

Paulo Vitor Ferreira, repórter e editor do site Notícias Paraolímpicas (www.einclusao.net)

Tempos modernos no jornalismo. Trabalho na área de Comunicação do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência e uso, às vezes, um recurso muito impessoal e frio de entrevistar: o MSN. Numa dessas conversas, frias e impessoais, consegui ter um papo descontraído e engraçado com a jogadora de tênis de mesa Jane Karla. A atleta tem seqüelas de poliomielite em suas pernas, é uma das melhores da sua modalidade no paradesporto e foi convocada para a Seleção dita convencional que representará o país no Mundialito, em Belo Horizonte, de 17 a 20 de abril. Ela fez uma pergunta que me deixou com uma dúvida absurda: ‘é certo um repórter me chamar de paraatleta?’.
Fiquei extremamente irritado com a possibilidade de um jornalista chamar um campeão de sua modalidade de paraatleta (nome horroroso) por ter deficiência. Nesse momento, brinquei com Jane. “Então, sou um pararrepórter, um paraprofissional ou um parajornalista por ter seqüelas – não consigo deixar de colocar o trema – de paralisia cerebral (tenho um certo comprometimento físico do lado direito e uma pequena dificuldade na articulação das palavras)”, disse.
Jane se empolgou e mandou vários KKKKKKKK. Entendi que achou engraçado e começou a rir. Esses tempos de MSN...

“É verdade! Então, sou uma paramulher e uma paramãe (ela tem dois filhos) que faz vários paratreinamentos diários e ainda participa de paracompetições. Trabalha em sua paracasa, e recebe a colaboração de sua paramãe para cuidar de sua parafamília”, verbalizou Jane, de maneira bem-humorada.


Confesso que errei

Quem colocou lenha na fogueira foi a ex-assessora de imprensa do Comitê Paraolímpico Brasileiro, Luciana Pereira, que disse odiar o termo paradesporto. Uso essa palavra para apresentar meu site, Notícias Paraolímpicas, e meu blog no Google, de mesmo nome. Cheio de humildade, ofereço a outra face. No MSN, essa frase viria acompanhada de um ‘RSRSRS’. Uma maneira simples de mostrar ao meu ‘destinatário virtual’ que estaria proferindo uma discreta risada.
Já o assessor de Comunicação do IBDD, Andrei Bastos, jogou mais lenha ainda. “E paraolímpico?”, indagou. O termo paraolímpico, pelo menos, é algo já institucionalizado. É o mesmo que chamar árbitro de futebol de juiz no jornalismo. A maioria dos editores sabe que existe uma diferença grande entre as profissões juiz e árbitro, mas eles usam a denominação ‘juiz’ para não repetir a palavra árbitro trezentas vezes no texto.
Sei que paraolímpico não é o melhor nome (esporte para pessoas com deficiência é mais indicado), mas não é tão ruim assim. Porém, os jornalistas precisam empregá-lo de maneira certa. O esporte paraolímpico é só aquele que faz parte das Paraolimpíadas. De vez em quando, erro o seu emprego. Porém, estou mais atento.


Palavra maldita
O repórter deve tentar não usar termos que possam ser uma forma branda de preconceito. Se é que existe um preconceito brando. Existe um certo temor nas redações com a palavra deficiência, mas escrever ‘esporte para pessoas com deficiência’ (o negrito é meu) não é uma prática desprezível. O pseudo-eufemismo (paraatleta, paranadador etc.) chega a ser bobo e risível.

Agora, vou esperar a próxima conversa fria e impessoal com a inteligente Jane Karla para refletir sobre a minha profissão. Esses tempos de MSN...

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