sábado, 19 de abril de 2008

Eles já invadiram a sua praia

Paulo Vitor, do Lancenet (http://www.lancenet.com.br/blogs_colunistas/paulovitor/default.asp) e do site Notícias Paraolímpicas (http://www.einclusao.net), e Alexandre Guimarães (futuro editor e colunista da Rolling Stone)


Com uma ajuda gigantesca do jornalista especializado em música Alexandre Guimarães, o meu maior incentivador na idéia de criar um blog sobre esportes para pessoas com deficiência, relatei abaixo o trabalho primoroso de uma ONG. Quero lembrar que o surf não é um desporto paraolímpico, mas a iniciativa é genial.

A associação Favela Surf Clube teve uma belíssima idéia. Ela realiza várias atividades de inclusão social através da cultura e do esporte na Praia do Arpoador. Aulas de percussão, futebol de praia, vôlei de praia e surf são ministradas por músicos e professores formados em educação física, que também são preparados para lidar com pessoas com deficiência.

"Temos três alunos de surf que são deficientes visuais. É uma realização pessoal para eles e para todo o grupo. Os demais se sentem ainda mais motivados a partir do exemplo dado por eles", revela João Paulo. Quando esses três alunos – Jonas de 13 anos, Caio de 16 e Alessandro de 21 – enfrentam as ondas, os professores pedem aos banhistas próximos que mantenham uma certa distância dos alunos, para que eles só se preocupem com o mar.


Cada aluno é monitorado por dois professores: um deles coloca o futuro surfista na onda e o outro fica na chegada, para avisá-lo da entrada na faixa de areia. As pranchas são feitas de borracha. "Observamos que o contato da pessoa com deficiência com a água estimula a percepção, acarretando uma melhora considerável na sua coordenação motora", avalia João Paulo, que também é surfista. A associação está preparada para receber alunos com diversas deficiências. As aulas coletivas são gratuitas; só as individuais são pagas.

Voluntários percorrem a orla

"Quando lavarem a mágoa/Quando lavarem a alma/Quando lavarem a água/Lavem os olhos por mim". "Aos Nossos Filhos", a bela canção de autoria de Ivan Lins e Vítor Martins, lançada em 1978, era quase que uma carta testamento com um pedido de desculpas às futuras gerações pelo estado do planeta Terra.

Pensando em evitar esse tipo de herança, a ONG Surfrider Foundation celebrou no dia 29 de março o "Valeu Praia - Dia Nacional de Limpeza das Praias". O projeto foi realizado por mil voluntários espalhados por 11 pontos da orla marítima do Rio de Janeiro - começando na Praia do Arpoador, passando por São Conrado, Pepê, Barra da Tijuca, Recreio, Macumba, Prainha e terminando na de Grumari.

Ambientalistas, surfistas, empresários e estudantes, munidos de luvas e sacos plásticos, recolheram o microlixo encontrado nas areias, fendas e grutas da pedra do Arpoador - local de concentração do evento. O ambientalista, surfista e presidente da Surfrider Foundation, Roberto Vámos, alertou para a importância de se educar a população. "A praia não está suja por falta de poder público e sim porque nós a sujamos", diagnostica Roberto, que lembra a dificuldade do gari em recolher o microlixo. Segundo os registros da Companhia de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro (Comlurb), o verão de 2006 e 2007 foi recordista em poluição na costa brasileira, sendo que no Rio de Janeiro ocorreu um aumento significativo do volume de lixo despejado nas praias.

A associação Favela Surf Clube estava representada por 50 crianças que integraram os grupos de voluntários. Deste total, 30 crianças também fizeram parte da bateria do mestre Adaílton, que é o coordenador do núcleo de percussão da entidade. A bateria chamou a atenção dos banhistas. "É muito importante a participação das nossas crianças. Tanto para elas aprenderem a ter uma consciência ecológica, como para ensinar aos banhistas que as vêem atuando", avalia João Paulo da Silva, advogado e diretor executivo da associação.

Surfista há seis anos, Paulo César, 26 anos, nasceu em Cabo Verde, onde trabalhava em limpeza das praias. Sdims, como é conhecido entre os surfistas, estuda Direito na Universidade Santa Úrsula e é militante na luta contra a poluição marinha. "Os colonizadores destruíram a cultura de muitos países. Todas as praias de países colonizados sofreram ou sofrem com a poluição", dispara. Sdims também foi um dos voluntários na limpeza da Praia do Arpoador, assim como o geólogo Charles Young que estava acompanhado da sua mulher, a publicitária Júlia Aguiar.


Charles também defendeu o projeto Valeu Praia. "É uma iniciativa que necessita de mais adesões", analisou. Este ano, no Brasil, as adesões vieram dos estados de São Paulo, Santa Catarina, Bahia, Espírito Santo e Amapá. No exterior, com o apoio da Surfrider Foundation International, a ação foi acompanhada por ativistas da Argentina, França, Espanha, Portugal, Austrália, Japão, Porto Rico, Canadá e Estados Unidos.


Tal mobilização internacional se justifica. Roberto Vámos informa que, anualmente, os oceanos recebem mais de dez milhões de toneladas de plásticos, que formam verdadeiras ilhas gigantes boiando entre as correntes marinhas e matando milhões de tartarugas, focas, golfinhos, tubarões e aves marinhas, que confundem o lixo com os alimentos.

No Brasil, todo o lixo coletado no "Dia Nacional de Limpeza das Praias" será encaminhado para reciclagem. Os resíduos recolhidos serão classificados e quantificados por uma equipe do laboratório de pesquisas oceanográficas da UFRJ. Um relatório será enviado ao Ministério do Meio Ambiente e ao Center for Marine Conservation - CMC -, que encaminhará uma avaliação à UNEP - Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas.


Essas informações serão utilizadas na formulação de uma política internacional de proteção ao ecossistema costeiro mundial. "Assim como a cidade, praia limpa é a que não se suja", teoriza Roberto Vámos. Quem sabe as gerações futuras darão sentido aos versos finais de "Aos Nossos Filhos": "Quando brotarem as flores/Quando crescerem as matas/Quando colherem os frutos/Digam o gosto pra mim"

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