segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Deficientes mostram que têm muito samba no pé, quer dizer, nas rodas, muletas etc.

“Essa celebração anima a alma”. Com esta frase, Rafael Coimbra, atleta da equipe de bocha do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD) e paralisado cerebral (comprometimento físico), deixa claro que o bloco carnavalesco de sugestivo nome ‘Senta que eu empurro’ foi peça fundamental para mostrar a alegria de viver dos deficientes, que fizeram a festa nas ruas Artur Bernardes (de onde saiu o bloco idealizado pelos funcionários do IBDD), Bento Lisboa e Dois de Dezembro, na sexta-feira, dia 1º de fevereiro.




O ‘Senta que eu empurro’ deu uma alegria a mais na vida de Rafael. Perguntado pela manhã, após o treino da equipe, como era sua vida antes de conhecer as atividades do Instituto, o inteligente Rafael, estudante de jornalismo e autor de algumas poesias ainda não-publicadas, foi taxativo. “Não conseguia me olhar no espelho”, disse Rafael, que é cadeirante.




Durante a apresentação do bloco pelo bairro do Catete, Rafael Coimbra era de uma vivacidade impressionante. Cantava o samba descontraído e, ao mesmo tempo, politizado do ‘Senta que eu empurro’, brincava com todos os integrantes, flertava com as mulheres presentes e até exibia sem pudor um preservativo. “Carnaval sem sexo não existe”, afirmou, às gargalhadas.




Além de Rafael, outros demonstravam a sua vontade de viver intensamente. O casal de mestre-sala e porta-bandeira, formado por Andrei Bastos e Ana Cláudia, sambou para valer. Wellington, assistente de serviços gerais do IBDD, botou ordem na casa ao controlar o tráfego de carros nas ruas. Outros integrantes da ONG mostraram que sabem tudo de carnaval, como Samara da Matta, paralisada cerebral e outra integrante da equipe de bocha, sempre animada, ao lado de sua mãe Sônia.




João Carlos Farias (que mexia sua cadeira de rodas de maneira frenética de um lado para o outro), Luiz Cláudio Pereira, Márcia Fernandes e até o fã de óperas Cassiano Fernandez se renderam à maior festa & arte popular do país.




A bateria deu o ritmo certo e não ‘atravessou’. Já o autor do samba e intérprete Murilo Di Vangô não escondeu a satisfação de ter participado do primeiro desfile do ‘Senta que eu empurro’. “Achei maravilhoso. É muito bom participar dessa idéia pioneira e estar com amigos”, afirmou Di Vangô, que teve paralisia infantil.




Vários moradores do bairro se encantaram com o bloco. Entre eles, Eduardo Gonçalves falou da importância da iniciativa. “É mais uma mostra da superação do deficiente, que tem de brincar o Carnaval mesmo!”, verbalizou.




A ex-deputada estadual e ex-técnica da Seleção Brasileira de Ginástica Olímpica Georgette Vidor também deu o ar de sua graça: “As pessoas com deficiência têm de estar em todos os lugares, mas um bloco desse tipo é de grande importância.”




SAPUCAÍ ACESSÍVEL




A festa continuou no domingo e na segunda-feira, dias 3 e 4, no Sambódromo. Ana Cláudia, a estrela maior do IBDD no Carnaval, não se contentou em ser a porta-bandeira do ‘Senta que eu empurro’ e desfilou na Portela e na Grande Rio, as escolas do Grupo Especial com alas de cadeirantes.




LUGAR RESERVADO PARA A FOLIA




O Setor 13, na frisa, foi destinado a pessoas com deficiência e seus acompanhantes e palco de muita descontração. Os atletas Wânderson (Futebol de Sete), Roberto Paixão (Judô) e Viviane Macedo (Dança Esportiva em Cadeira de Rodas) compareceram com grande brilho.




Casais pra lá de felizes foram dar demonstrações públicas de seu amor na ‘Passarela do Samba’, como o cadeirante Rosemberg e a andante Kátia Oliveira.


“Estamos casados há cinco anos. Nós nos conhecemos numa festa”, resumiu Rosemberg, paraplégico. Já Kátia, que não é deficiente, preferiu dar o segredo da união entre os dois. “Temos muito companheirismo. Ele possui muitas qualidades”, disse.




Outro casal que encantou a Sapucaí foi Luiz Cláudio, andante sem deficiência, e Amanda Santos, cadeirante. “Estamos noivos e curtindo muito o Carnaval”, afirmou Luiz, torcedor da Vila Isabel, que mostrava ter muito carinho com a salgueirense Amanda, uma mulata realmente linda.




Mas não foram só os casais que brilharam na Sapucaí. Ademir Cruz de Almeida, amputado da perna direita, capitão da Seleção de Futebol e presidente da Associação Brasileira de Desportos para Amputados, pulou como uma criança: “É a primeira vez que vejo o desfile na Sapucaí. Estou muito feliz. É uma oportunidade única.”




Os portadores de Síndrome de Down mostraram também muito samba no pé. Renato Rosário, de 38 anos, vibrou com o bicampeonato da Beija-Flor, agora são cinco títulos em seis anos. Leonardo Costa, 37, e Stela Caroline, 17, deram inveja a muitos passistas. “É o primeiro ano que venho ao Sambódromo. O desfile é muito bonito”, encantou-se Caroline, que desfilou na Estrelinha de Padre Miguel e estava acompanhada da mãe, Vilma Morais.




NÃO DÁ PRA VER NADA





Os cadeirantes tiveram uma visão privilegiada (ficaram do lado da pista da Sapucaí). Integrante da ala dos artistas da Mangueira, a atriz Luana Piovani aproveitou a proximidade do espaço reservado a eles e distribuiu beijinhos em todos. Mas só os cadeirantes tiveram grande sorte, pois o único contratempo no Sambódromo foi a distância entre o setor destinado aos andantes (setor13-frisa), deficientes ou não, e a passarela. Muitos foliões pediram uma solução para o ano que vem.




Apesar desse problema, o ‘Carnaval da Inclusão’ continuou brilhando intensamente e as pessoas com deficiência provaram que têm o direito de celebrar a vida e o dever de se divertir.

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